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Dia Mundial da Luta Contra a Aids

Psicólogo Remom Matheus Bortolozzi (CRP-01/17820) fala sobre o enfrentamento à doença e do atendimento psicológico a pessoas que vivem com HIV/AIDS.

Atualizado em 13/12/2017

 

Transmissão ao vivo do evento Psicologia, Memória Social e Direitos Humanos em HIV/AIDS aqui

 

No dia 1° de dezembro, data que marca o Dia Mundial da Luta Contra a Aids, o Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) conversou com Remom Matheus Bortolozzi (CRP-01/17820) sobre os aspectos psicológicos envolvidos em situações de HIV/AIDS. “O compartilhamento sobre as vivências da doença e do preconceito, bem como respostas tanto coletivas como pessoais e singulares presentes na ampla produção cultural, especialmente nas artes, são formas de não apenas quebrar o isolamento e vergonha da vivência com o HIV, mas de novas vias de construção de si”, explica.

 

Veja também: Psicologia, Memória Social e Direitos Humanos em HIV/AIDS acontece nesta sexta-feira (01)

 

A data, escolhida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e desde 1988 lembrada no Brasil, reforça a necessidade da conscientização da doença, com um espírito de tolerância social e menos preconceito.

O HIV, que vem da sigla – em inglês – para Vírus da Imunodeficiência Humana, ataca o sistema imunológico, responsável por defender o organismo de doenças, alterando o DNA de células do corpo humano. Ao se multiplicar, rompe os linfócitos em busca de outros para continuar a infecção.

É importante esclarecer que ter o vírus HIV não é a mesma coisa que ter AIDS. Existem muitas pessoas que são portadoras do vírus e vivem anos sem apresentar sintomas e desenvolver a doença. Entretanto, podem transmitir o vírus a outros por meio da relação sexual desprotegida, por transfusão de sangue, pelo compartilhamento de seringas contaminadas e/ou de mãe para filho, durante a gravidez e a amamentação.

É sempre importante fazer o teste e se proteger em todas as relações sexuais. Normalmente, grande parte das pessoas acredita que esse risco não existe em suas vidas, e é aí que começa a vulnerabilidade.

Dados da UNAids, órgão das Nações Unidas, mostram que o vírus continua se propagando e que a melhor defesa é a informação e prevenção. Entre 2010 e 2016, o total de novas infecções a cada ano no Brasil aumentou em 3%. No mundo, essa taxa sofreu redução de 11%.

Para o Psicólogo Remom Matheus Bortolozzi, a abordagem psicológica deve ser voltada para o compartilhamento sobre as vivências da doença e do preconceito, pois assim serão quebrados o isolamento e o preconceito.

 

Confira a entrevista completa abaixo:

 

CRP-PR: O que os participantes podem esperar da mesa-redonda Psicologia, Memória Social e Direitos Humanos em HIV/AIDS? Sua fala será voltada para quais aspectos?

Remom: Relembrar a epidemia é acessar e trazer a potência dessas produções. São diversos os grupo e comunidades que protagonizaram essas respostas. Em minha fala trarei em especial a memória de uma das comunidades que mais foi impactada pela epidemia e que trouxe inúmeras respostas. Centrado na memória das comunidades LGBT brasileiras, a proposta de minha fala é ressaltar o protagonismo das comunidades LGBT na construção desse novo olhar para a saúde, para a Psicologia e para os próprios direitos humanos. Embora ainda pouco ressaltado na história da saúde, os LGBT tem especial papel proativo na construção do próprio Sistema Único de Saúde (SUS), relembrando que a epidemia eclode no Brasil em tempos de final de ditadura, debate da Constituinte e nascimento do SUS. O legado dessas comunidades é diverso, dentre as noções de sexo seguro, de solidariedade, da arte do cuidado, do ativismo cultural e de teorias e estéticas do corpo, gênero e sexualidade.

 

O compartilhamento sobre as vivências da doença e do preconceito, bem como respostas tanto coletivas como pessoais e singulares presentes na ampla produção cultural, especialmente nas artes, são formas de não apenas quebrar o isolamento e vergonha da vivência com o HIV, mas de novas vias de construção de si. As respostas a AIDS assim configuraram uma gramática própria e o desenvolvimento de um novo olhar para a saúde e para a própria Psicologia. 

 

Por que é importante discutir com a sociedade sobre a prevenção e a testagem para o vírus HIV?

O primeiro impacto da AIDS no Brasil ocorreu, sobretudo, no imaginário social. Rememorar uma epidemia que transformou comunidades, pessoas e seus corpos na própria doença é antes de tudo um exercício de inseri-la no campo político social e enfrentar os estigmas e discriminações para efetivação dos direitos humanos. A ineficácia de respostas unicamente biomédicas pra redução da epidemia demarcou a necessidade de um olhar complexo sobre as vulnerabilidades ao HIV/AIDS, sejam sociais, pessoais ou programáticas. O debate sobre como a opressão, discriminação e estigmatização são barreiras para a saúde e para efetivação dos direitos humanos é questão estratégica especialmente hoje, em tempos de ascensão de um forte conservadorismo. Essas barreiras são vistas em censuras sistemáticas a campanhas de prevenção (como a campanha de carnaval de 2012 e campanha voltada a profissionais do sexo em 2013); impedimento da circulação de informações sobre a doença nas escolas (expresso na mobilização conservadora nos Planos Municipais de Educação em todo o país, no impedimento de acesso de crianças e adolescente a obras artísticas e exposições que abordem gênero e sexualidade e no debate da “escola sem partido”), a enorme dificuldade de garantir o acesso a insumos de prevenção dentro das escolas e processos e a volta de debates sobre a criminalização da transmissão do HIV.

 

Como pode ser feita a atuação da(o) profissional de Psicologia no contexto do HIV/Aids?

A memória LGBT é uma das possibilidades de itinerários de abordagem que a Psicologia social e Comunitária pode trabalhar para prevenção e enfrentamento ao estigma. Essas memórias são potências em especial para o fortalecimento indenitário, do acolhimento e pertencimento comunitário. São formas de viver processos de saúde e doença coletivamente e de expandir diversidade de vias de subjetivações. O compartilhamento sobre as vivências da doença e do preconceito, bem como respostas tanto coletivas como pessoais e singulares presentes na ampla produção cultural, especialmente nas artes, são formas de não apenas quebrar o isolamento e vergonha da vivência com o HIV, mas de novas vias de construção de si. As respostas a AIDS assim configuraram uma gramática própria e o desenvolvimento de um novo olhar para a saúde e para a própria Psicologia.