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Dia Internacional de Combate à Violência Contra a Mulher

Psicóloga fala sobre atendimento psicológico e sobre combate à violência

Atualizado em 13/12/2017

A cada 7,2 segundos, uma mulher é vítima de violência física domiciliar no Brasil. Cerca de 70% das vítimas de estupro são crianças e adolescentes; quem mais comete o crime são homens próximos às vítimas. Apenas em 2015, uma mulher foi estuprada a cada 11 minutos.

Um dia não é o suficiente para discutir sobre o fim de todas essas violências; entretanto, todas as forças se reúnem no dia 25 de novembro e, a partir dele, começamos a contar os 16 dias de ativismo pelo fim da violência contra a mulher.

O Dia Internacional do Combate à Violência Contra a Mulher (25), instituído em uma Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) em 1999, incita reflexões sobre a situação de violência em que vivem milhares de mulheres espalhadas pelo mundo.

Ao sofrer algum tipo de violência, é de extrema importância que a vítima passe por um atendimento psicológico. De acordo com a Psicóloga Roberta Cristina Gobbi Baccarim (CRP-08/14434), esse atendimento deve ser baseado na desculpabilização da vítima, bem como no fortalecimento de sua autonomia e autoestima.

Para Roberta, é crucial entender o aspecto cultural e sócio-histórico da violência de gênero para que possamos eliminar as agressões contra as mulheres.

 

Leia também: CRP-PR disponibiliza Nota Técnica sobre quebra de sigilo em casos de violência contra a mulher

 

Confira a entrevista completa abaixo:

 

CRP-PR: Como a(o) Psicóloga(o) deve agir ao saber que a paciente está sofrendo violências do parceiro e/ou de outros membros da família?

Roberta Baccarim: Caso a vítima esteja em processo de psicoterapia ou acolhimento, é importante que a(o) Psicóloga(o) fortaleça o vínculo terapêutico, para que ela possa falar das situações de violência sabendo que está em um ambiente seguro. Muitas mulheres sentem-se culpadas pelas situações que vivenciam, pensam que o parceiro já era assim quando o conheceu e que, portanto, se ela investiu e continuou no relacionamento, a culpa da violência é dela. É imprescindível trabalhar a desculpabilização da vítima, sua autonomia e autoestima, assim como fazer o acolhimento do seu sofrimento e preocupações. É muito importante que a(o) profissional mantenha uma posição de não-julgamento, independente das escolhas e decisões de sua paciente. Muitas vezes, por mais que seja trabalhado individualmente o fortalecimento para que ela possa sair da situação, ela não o faz por não ter suporte social, depender financeiramente do marido ou familiar, por medo ou por não se sentir capaz para tal. A(O) Psicóloga(o) deve transcender a posição passiva de ouvinte e orientar a paciente sobre redes sociais de apoio alternativas e auxiliá-la na tomada de decisões para que possa sair de uma situação de abusos e violência.

 

Muitas mulheres sentem-se culpadas pelas situações que vivenciam, pensam que o parceiro já era assim quando o conheceu e que, portanto, se ela investiu e continuou no relacionamento, a culpa da violência é dela. É imprescindível trabalhar a desculpabilização da vítima, sua autonomia e autoestima, assim como fazer o acolhimento do seu sofrimento e preocupações.

 

Como a Psicologia pode ajudar para a eliminação da violência contra a mulher?

A fim de formar profissionais aptos para identificar estas situações e entendendo o aspecto cultural e sócio-histórico da violência contra a mulher, a Psicologia enquanto disciplina deve promover e incentivar debates acadêmicos sobre os temas de gênero e sexualidades, machismo, misoginia, patriarcalismo, diferentes formas de violência contra a mulher, direito ao aborto, racismo e outras formas de discriminação e violência que atinge a vida de mulheres cisgêneras, travestis e transexuais de maneira interseccional.

Da mesma maneira, os órgãos representantes da classe e os próprios profissionais devem manter sempre um posicionamento crítico de desnaturalização da violência contra a mulher em suas diversas formas, valorizando sempre a possibilidade de ativismo da classe em busca de uma sociedade mais equânime e livre de opressões.

 

Quais são os tipos de violências pelas quais as mulheres podem passar? A violência psicológica é demonstrada em quais tipos de comportamentos?

A violência contra a mulher pode ser física, psicológica, sexual, patrimonial e moral (aqui está bem detalhado). A violência psicológica é bastante ampla, visto que é interseccional às outras, causando dano emocional e da autoestima da vítima. Pode ser manifestada pelo controle, ameaça, humilhação, constrangimento, perseguição, chantagem, privação de liberdade e quaisquer meios e atitudes que causem prejuízo à saúde psicológica da vítima.

 

De que forma a sociedade pode contribuir para prevenir e combater as violações dos Direitos Humanos das mulheres e no que podemos avançar em relação às leis brasileiras sobre o assunto?

A ampliação do direito ao aborto, que está em vias de sofrer grande retrocesso, deve ser discutida mais amplamente com a sociedade civil, organizações e movimentos, visto que é uma questão de saúde pública e morbidade de mulheres, assim como as priva de autonomia para decidir sobre seus corpos e suas vidas. O não-direito à realização segura do procedimento não diminui o número de abortos, mas faz com que as mulheres se submetam a métodos alternativos e não regulados, podendo sofrer grandes prejuízos de saúde e morte. Assim, o não-direito ao aborto de maneira ampliada é uma violência do Estado com todas as cidadãs mulheres.

A elaboração de leis contrárias à violência de gênero é importante, mas é necessário compreender que estas são medidas paliativas que procuram proteger uma pessoa que já está em situação de violência/abuso. Por exemplo, a Lei Maria da Penha, que já completa 11 anos, apesar de ser uma grande conquista feminina, não foi responsável por diminuir o número de violências de gênero.

 

É crucial que entendamos o aspecto cultural e sócio-histórico da violência de gênero.

 

Portanto, é crucial que entendamos o aspecto cultural e sócio-histórico da violência de gênero. Os homens agressores muitas vezes não são pessoas violentas socialmente, mas que performam em seus relacionamentos a cultura da banalização da violência de gênero, raça, orientação sexual, entre outras. Assim, acredito que a maneira mais assertiva de mudança é dando visibilidade às injustiças, promovendo debates, dando voz às mulheres, para que falem de si a partir de suas próprias subjetividades e vivências. É também se fazendo disponível para a sua amiga, colega, conhecida que você desconfia que precise de ajuda ou acolhimento, para conversar sem que se sinta julgada sobre um relacionamento abusivo. Com os homens e adolescentes, deve-se apontar as piadas machistas que naturalizam a violência de gênero, buscando atuar em nível cultural, de uma perspectiva micro para atingir o macro. E com as crianças é fundamental que se trabalhe, tanto em casa quanto nas escolas, a igualdade de gênero e o respeito às diferenças.